Transtorno de Personalidade “Borderline” | (2022)

Texto por:

Rafael T. de Sousa
Iago Oliveira Ferradans

www.psiquiatriaweb.com/depressao/depressao.html

O que é o transtorno de personalidade borderline?

O Transtorno de Personalidade “Borderline” (TPB) ou “limítrofe” é um quadro de instabilidade emocional e da autoimagem, envolvendo também impulsividade e uma dificuldade de manter relações interpessoais saudáveis.

Quais são os sintomas do transtorno de personalidade borderline?

O transtorno de personalidade borderline é também conhecido como transtorno de personalidade emocionalmente instável. Esse nome que expressa um sintoma central do transtorno: instabilidade emocional. Daí os pacientes com TPB terem mudanças de humor abruptas e por isso acreditarem ter transtorno bipolar.

As manifestações desse e dos outros aspectos do transtorno variam de pessoa para pessoa, mas de modo geral podem ser observados os seguintes sintomas:

  • Esforços desesperados para evitar o abandono (real ou imaginado).
  • Padrão de relacionamentos instáveis com outras pessoas, oscilando entre idealização e desvalorização.
  • Instabilidade acentuada e persistente da percepção de si mesmo.
  • Impulsividade em áreas autodestrutivas (como gastos, sexo, abuso de substâncias, direção irresponsável ou compulsão alimentar).
  • Repetidos comportamentos, gestos ou ameaças suicidas ou comportamentos automutilantes.
  • Instabilidade afetiva ligada a intensa reatividade de humor (acentuada irritabilidade/ansiedade durando algumas horas e, raramente, alguns dias).
  • Sentimentos crônicos de vazio.
  • Raiva intensa e inapropriada ou dificuldade em controlá-la.
  • Paranóia de curta duração associada a estresse.

O TPB é complexo porque, além de suas manifestações próprias, é um transtorno que frequentemente apresenta-se junto a outros. As comorbidades mais comuns são:

  • Transtornos de Humor (96%)
  • Transtornos de Ansiedade (88%)
  • Transtornos de Abuso de Drogas (64%)
  • Transtornos Alimentares (53%)

Quais são as causas?

As causas do transtorno de personalidade borderline ainda não estão completamente esclarecidas. Atualmente, entende-se que provavelmente existem fatores genéticos que causam predisposição ao desenvolvimento do quadro. Além disso, há os efeitos de elementos de estresse como traumas. Certas alterações biológicas específicas já foram detectadas em alguns pacientes com TPB, mas ainda não foi encontrado sinal definitivo.

Qual é o tratamento?

Atualmente, o tratamento do transtorno de personalidade borderline envolve principalmente psicoterapia auxiliada por farmacoterapia. De modo geral, o objetivo do tratamento é ajudar o paciente com o controle da raiva, dos impulsos e da sensibilidade à rejeição/crítica. Existem múltiplas formas de psicoterapia (não havendo consenso de que uma seja melhor) que podem ser aplicadas:

Terapia Comportamental Dialética

Trata-se de um dos tratamentos mais comuns para o TPB. Nele, o objetivo central é auxiliar o paciente a criar uma vida que vale a pena ser vivida. Essa terapia envolve diversas áreas e não se limita apenas a consultas individuais.

A terapia com o paciente geralmente ocorre em 3 instâncias.

  1. Treinamento de habilidades em grupo, utilizando uma abordagem didática para obter controle sobre a desregulação emocional e a impulsividade.
  2. Terapia individual em sessões semanais de (em média) 50 a 60 minutos.
  3. Consultas telefônicas, estabelecidas de acordo com os terapeutas para serem feitas de forma rápida (até 10 minutos) caso o paciente sentir que está prestes a ter uma crise.

Tratamento Baseado na Mentalização

Nessa terapia, busca-se treinar o paciente a conscientizar-se dos processos mentais e interpretações subjetivas que ocorrem nas interações entre indivíduos. Essa capacidade de mentalização ajuda o paciente a entender e regular melhor seus pensamentos e sentimentos, evitando os problemas associados ao TPB.

Psicoterapia Focada na Transferência

Nessa forma alterada de psicoterapia psicodinâmica, o paciente é diretamente e rapidamente conscientizado sobre suas distorções com relação ao terapeuta. Além disso, o terapeuta indica como tais distorções interferem nas relações do paciente com outras pessoas.

Sobre a farmacoterapia

A farmacoterapia nesse caso é utilizada de forma auxiliar para lidar com características específicas que interferem no funcionamento normal do paciente. Exemplos incluem antipsicóticos para controlar a raiva, antidepressivos para o humor.

Não se deve confundir o alívio dos sintomas (via medicamentos) com cura.

Existe cura para o transtorno de personalidade borderline?

Felizmente, a perspectiva do transtorno de personalidade borderline é boa na grande maioria dos casos sob tratamento. Um estudo longitudinal de 290 pacientes diagnosticados com TPB ao longo de 16 anos chegou aos seguintes resultados de remissão (redução brusca dos efeitos do transtorno):

  • 91% obtiveram remissão em até 10 anos
  • 99% obtiveram remissão em até 16 anos

Comportamentos típicos do borderline

Expandindo-se dos critérios de diagnóstico, há certos comportamentos que são frequentes em pessoas com TPB. Aqui são apresentados alguns mecanismos de defesa que não são exclusivos do TPB (ou de pessoas com transtornos psiquiátricos), mas são especialmente frequentes e patológicos no caso de TPB.

Cisão

Aqui, cisão é o processo no qual o indivíduo classifica as pessoas a sua volta em duas categorias distintas: boas ou más (sem graus entre os dois). Ou seja, há uma visão de que todos são apenas seres bondosos ou apenas torturadores sádicos. No caso de TPB, essa classificação leva a, respectivamente, idealização e desvalorização desproporcionais. Além disso, a própria classificação feita das pessoas é instável, levando a alterações repentinas e bruscas de opinião em resposta a qualquer ação que fuja do esperado para a categoria.

Identificação Projetiva

Aqui o nome é autoexplicativo: o indivíduo projeta aspectos próprios sobre o outro em busca de criar algo em comum que serve como base para união e aproximação. Isso ocorre em 3 estágios:

  • A transferência (projeção) de um aspecto da própria personalidade para o outro.
  • A tentativa de fazer o outro se identificar com esse aspecto.
  • O sentimento de união.

Um exemplo seria alguém sentir que não está indo na academia o suficiente e tentar

conduzir a conversa com o amigo/parceiro de forma que o outro diga “acho que eu também preciso ir mais na academia”. Quem projeta, então, sente-se mais próximo do outro, que pode estar apenas concordando por educação.

Não se trata da busca de terreno comum entre duas pessoas, mas da manipulação (não necessariamente consciente) de alguém para fazer essa pessoa agir de determinada forma.

Como lidar com alguém que tem transtorno de personalidade borderline?

Pode ser muito difícil conviver com alguém que tem transtorno de personalidade borderline, especialmente se for uma relação mais próxima como um parente ou um namorado(a). Mesmo com o tratamento, o comportamento do portador de TPB pode levar a grandes estresses emocionais nas pessoas em volta.

Não há um guia exato para lidar com alguém que tem TPB, sendo importante conversar com o terapeuta para ter orientações adaptadas para o caso em questão. Porém, há algumas dicas gerais:

  • Não leve tudo para o lado pessoal. A pessoa borderline pode dizer certas coisas que ofendem, mas pode tratar-se de um extravazamento de suas questões internas (desejo de afeto, frustração, uma crise). Isso não significa ignorar tudo, porque muitas vezes a pessoa com o transtorno tem dificuldade de se comunicar com clareza. Procure analisar com imparcialidade o que foi dito e não deixe as emoções embutidas dominarem sobre o conteúdo.
  • Seja claro e objetivo. Evite carregar suas mensagens com emoções fortes e converse de forma a facilitar a comunicação. Sermões e discussões só agravam a irritação associada ao TPB.
  • Seja coerente. Como o TPB tem como elemento central a instabilidade, é importante evitar agir de forma que agrave isso. Ou seja, não condene/elogie um comportamento e depois faça o oposto. Deixe claro que há consequências previsíveis para o que a pessoa com TPB faz.
  • Sua saúde também é importante. Por mais que você ame alguém, o relacionamento pode trazer muito estresse emocional com o investimento cada vez maior de atenção e tempo. Isso pode esgotar/desmotivar você, impedindo que você ajude (derrotando o propósito do apoio). Tenha limites.

A Questão do Suicídio

Em casos de TPB, são frequentes as ideações (pensamentos), ameaças e gestos suicidas, especialmente em resposta a estresse emocional. Nesses casos, é essencial a busca por ajuda e tratamento. O controle dessas atitudes em particular é sempre o primeiro objetivo da terapia.

Na maioria das vezes, o suicídio pode ser evitado.

Referências:

Paris, Joel. “Borderline Personality Disorder.” CMAJ : Canadian Medical Association Journal 172.12 (2005) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC558173/

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Author: Zonia Mosciski DO

Last Updated: 01/07/2023

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